A Supremacia da Vida

(Ecos de Marte, Europa e Titã)

Carlos Eduardo Guerra Schrago
g_u_e_r_r_a@hotmail.com

"Um homem que concorda com Copérnico, que a nossa Terra é um planeta, carregada e iluminada pelo Sol, assim como os outros [planetas], não pode deixar de às vezes ter uma fantasia...que o resto dos planetas possuem vestuário e mobília, além de habitantes como a Terra...Mas nós sempre estaremos aptos a concluir que é em vão nos perguntarmos o que a Natureza fez lá; visto que não há fim no processo originado pelo ato de perguntar...mas num momento atrás, pensando mais seriamente sobre esse assunto (não que eu me considere um homem mais esperto do que os outros homens[do passado], mas eu tive a felicidade de viver depois deles), me veio à mente que a Pergunta não é tão impraticável, mesmo que existam dificuldades, e existe um grande espaço para Conjecturas"

Christiaan Huygens,1690

"New Conjectures Concerning The Planetary Worlds, Their Inhabitants and Productions"

"Eu não posso dizer com que um ser extraterrestre se pareceria. Estou terrivelmente limitado pelo fato de saber como a vida é em apenas um lugar, a Terra. Algumas pessoas ¾ escritores de ficção científica e artistas, por exemplo ¾ têm especulado em como esses seres possam ser. Eu sou céptico à respeito da maioria dessas visões dos extraterrestres. Elas parecem se basear muito nas formas de vida que nós já conhecemos... Eu não acho que a vida em outro lugar seja semelhante a um réptil, um inseto ou um mamífero."

Carl Sagan, 1980

"Cosmos"

     É inevitável! Basta olharmos para o céu nas noites claras e nos impressionarmos com a vastidão do Cosmo. E uma pergunta perturba nossas mentes nestes momentos de reflexão: estaremos sozinhos? Essa pergunta obviamente não é nova, Christiaan Huygens já estava fascinado por ela no século XVII (é interessante notar que Isaac Newton, contemporâneo de Hyugens e criador da gravitação universal, nunca tenha se feito, pelo que sabemos, essa pergunta) e, no decorrer do tempo, mais e mais o homem procurava por uma resposta. É claro que após o final dos anos 60 do nosso século, com a corrida espacial, tínhamos desenvolvido uma tecnologia que nos possibilitava tentar encontrar "A Resposta". Nos últimos 35 anos assistimos a tentativa das agências espaciais russas e, é claro, da agência espacial americana (e do serviço secreto também) - a famosíssima NASA, entrarem em uma corrida, secreta, para descobrir algo à respeito da vida extraterrestre. Conseguiram a resposta? Parece que não, valores literalmente astronômicos foram investidos e até agora nada, quer dizer, quase nada. Deveríamos desistir da procura? Estaremos realmente sozinhos no Cosmo? Por que não desistimos?

     Simplesmente não iremos desistir! A resposta tem um valor muito grande para a humanidade, não apenas um valor geopolítico, mas antes de tudo um valor imensurável para os nossos espíritos exploradores! Ora, o que fizemos desde o início de nossa civilização a não ser explorar? A Terra ficou pequena demais para o homem e queremos nos aventurar pelos recantos mais desconhecidos do universo. É inútil usarmos o argumento do "se nem mesmo conhecemos os nosso oceanos, por que gastar tanto dinheiro na procura de vida extraterrestre?" ou então o não menos comum "por que gastar tanto com a procura de vida extraterrestre quando ainda temos crianças morrendo de fome aqui, na Terra?"; esses argumentos são infundados! Tratam-se de coisas distintas que não podem ser comparadas. É como se eu usasse o "por que investir nos taxonomistas tradicionais se o futuro é da sistemática molecular?", e quem garante que isso é certo?! Ou seja, devemos sim investir na procura da vida extraterrestre, talvez esse seja um dos mistérios maiores que o homem ainda possui. Mas, quais são as probabilidades de encontrarmos uma civilização tão avançada quanto a nossa?

     O astrônomo Frank Drake (Universidade da Califórnia, Santa Cruz) tentou responder essa pergunta; ele propôs que o número de civilizações tecnicamente avançadas na Galáxia poderia ser estimado por uma simples equação, que agora recebe o nome de Equação de Drake:

N = R* fp ne fl fi fc L

Onde, N = número de civilizações tecnicamente avançadas na Galáxia cujas mensagens estamos aptos a detectar; R* = taxa de formação de estrelas semelhantes ao Sol na galáxia; fp = fração de estrelas que possuem planetas; ne = número de planetas por sistema solar que são semelhantes à Terra (i.e., capazes de abrigar vida ); fl = fração dos planetas semelhantes à Terra nos quais a vida surge; fi = fração nas quais há evolução de vida inteligente; fc = fração das espécies que desenvolveram tecnologia adequada para enviar mensagens compreensíveis por nós; L = tempo de duração de uma civilização tecnologicamente avançada

     Ao que parece a famosa Equação de Drake leva em consideração todas as variáveis importantes para termos a idéia do número de civilizações avançadas em nossa galáxia. Observe que muitos dos termos da equação são bastante difíceis de se estabelecer, principalmente fl, fi e fc; entretanto valores como R*, fp e ne são observáveis. De modo geral, tomando os valores: N = 1/ano x 1 x 0,1 x 1 x 1 x 1 x 100 anos, temos um total de 10 civilizações tecnologicamente avançadas na Via Láctea! A princípio esse número parece ser pequeno, mas perceba que estamos calculando o número de espécies tal como nós. Imagine como esse número seria maior se considerássemos apenas a existência de vida!

     Agora, mesmo estando na mesma galáxia, a distância do nosso planeta para outros sistemas é muito, muito grande; então como saberemos da existência dessas civilizações? Fácil: através das ondas de rádio. Essa é a esperança dos astrônomos; as ondas de rádio podem viajar imensas distâncias sem serem significativamente degradadas pelos gases e pela poeira cósmica. Em 1960 Frank Drake usou um rádio telescópio no National Radio Astronomy Observatory para escutar duas estrelas semelhantes ao Sol: Tau Ceti e Epsilon Eridani, mas não obteve sucesso. Cerca de 40 tentativas já foram feitas por pesquisadores americanos e russos, todas falharam. De 1985 a 1994, um rádio telescópio da Universidade de Harvard conectado a um computador foi programado para varrer um enorme espectro de frequências em uma grande porção do céu e desde 1995 o Instituto SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence) tem usado técnicas avançadas para captar transmissões de cerca de 1000 estrelas semelhantes ao Sol. Até agora alguns sinais bem interessantes foram captados, mas não há nada confirmado.

     Entretanto, sejamos razoáveis. Mesmo que captemos sinais de rádio com "padrões de vida inteligente" não estaremos satisfeitos. Somos animais primariamente visuais, e, além de tudo, não teríamos como comparar as duas formas de vida que estão se comunicando. É aí que entra o segundo grupo de pesquisadores, além dos astrônomos, envolvidos no estudo da vida extraterrena; são cientistas que se interessam em como é (ou como seria) a vida fora da Terra. Sim, estamos falando de biólogos de extraterrestres, ou astrobiólogos! Não, isso não é invenção minha. A Astrobiologia (ou Exobiologia) tem ganhado cada vez mais atenção da comunidade científica e a NASA já possui um time de astrobiólogos do mais alto gabarito. São esses cientistas que coordenam os experimentos realizados pelas sondas que são enviadas pela NASA em suas missões exploratórias. Basicamente, à nível de sistema solar, existem três grandes alvos de interesse para os astrobiólogos: Marte, Europa e Titã.

     Marte já é mais que famoso. O planeta vermelho desde tempos remotos instiga nossa imaginação e, depois que tivemos certeza de que existiu água líquida na sua superfície, as esperanças são bastante grandes de que a vida tenha se desenvolvido ou que ainda se desenvolva em oceanos subterrâneos. Entretanto as missões que foram enviadas a esse planeta ainda não comprovaram nada. Europa, uma das luas de Júpiter, possui uma superfície de gelo que pode estar escondendo um oceano de água líquida em temperaturas adequadas para a vida como a conhecemos e uma sonda, a Europa Orbiter, está prevista para alcançar esta lua em 2003. Outra esperança reside em Titã, uma das luas de Saturno, que possui uma atmosfera semelhante a da Terra primitiva e um módulo acoplado à missão Cassini pousará em Titã em 2004; os resultados chegarão à Terra em 2005.

     O sistema solar pode estar repleto de vida! Não devemos esperar, como observou Carl Sagan, organismos semelhantes aos que conhecemos. Podemos encontrar formas de vida tão bizarras que será difícil enquadrá-las como "vivas". Aqui mesmo na Terra nos deparamos com organismos tão estranhos que todos nossos conceitos muitas são questionados: o que falar da bactéria Pyrococcus furiosus que vive a 113° C? E das bactérias que toleram um pH de quase zero, e outras que toleram um pH em torno de 11? Como um organismo pode tolerar uma radiação de 5 Mrads (Deinococcus radiodurans)? Dos Bacillus que voltaram a vida depois de 40 milhões de anos em dormência no intestino de uma abelha fossilizada? E do Streptococcus mitus que sobreviveu 3 dias desprotegido na superfície da Lua? É inútil estabelecermos limites para a vida! Ela encontra sempre uma maneira de extrapolá-los!

     Então, de lugares distantes como Marte, Europa e Titã, ecoa a sinfonia da Vida. E fascina nossos atentos ouvidos de espectadores da dança do Universo. Na esperança de encontrarmos nossos parentes galácticos...estaremos unidos por uma forma comum de vida? Compartilharemos o mesmo código da existência? E, para a Biologia, a esperança de um campo neutro onde ela possa mostrar a universalidade de suas leis!